Transtornos mentais relacionados ao trabalho são desafios a serem enfrentados na nova organização do trabalho

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O juiz Israel Adourian, coordenador do Comitê Regional do Trabalho Seguro, abriu o evento ao lado dos gestores regionais, os juízes Eduardo Thon e Glenda Ribeiro

Os transtornos mentais estão cada vez mais presentes no mundo do trabalho e podem ser provocados pelo assédio moral e sexual, jornadas exaustivas, metas abusivas, eventos traumáticos, perseguição do chefe, isolamento, entre outros. O tema foi escolhido pelo Comitê Gestor Nacional do Programa Trabalho Seguro para as campanhas em 2016 e 2017. O que preocupa o judiciário é identificar o nexo causal entre a doença mental e a atividade exercida pelo trabalhador. Neste contexto, surgiu a necessidade de discussão do tema, que foi objeto do 4º Seminário sobre Trabalho Seguro realizado pelo TRT18 nesta sexta-feira, 23/9, no auditório do Fórum Trabalhista.

O gestor do Comitê regional do Trabalho Seguro, juiz Israel Adourian, afirmou que é uma responsabilidade muito grande para o magistrado estabelecer o nexo causal entre esses transtornos e o trabalho tendo como base o laudo médico. “Encontramos geralmente a palavra “nexo possível” e muitas vezes sem o histórico da pessoa, o que torna complexa a arte de julgar o transtorno mental”, disse.

img_4146-copyPara a psicanalista Kátia Macêdo, doutora em psicologia pela PUC/SP, a intensa competitividade e o uso expressivo de novas tecnologias, além da cobrança de metas cada vez mais difíceis de serem alcançadas acabam se tornando fatores de risco para o surgimento da doença mental. Além disso, o uso da tecnologia acaba destruindo as barreiras entre trabalho e vida pessoal o que torna o trabalhador constantemente conectado ao trabalho. Ela citou estatística do INSS de 2013 que aponta o transtorno mental como a 3ª causa de afastamento por mais de 15 dias do trabalho.

A palestrante ressaltou que o trabalho é visto de diferentes formas e cada pessoa dá ao seu trabalho um sentido diferente. A autonomia, a liberdade e o reconhecimento são as grandes fontes de prazer no trabalho e permitem a descarga psíquica que protege a pessoa do adoecimento. Por outro lado, quando a organização do trabalho não permite as adaptações ou a criatividade e há muita rigidez o trabalho começa a ser fonte de sofrimento e a pessoa adoece.

Ela discorreu, em seguida, sobre as estratégias que o trabalhador utiliza para se livrar do sofrimento. Uma delas é a aceleração do trabalho, quando a pessoa pensa que fazendo sua atividade mais rápido e assim não vai ter tempo pra pensar. O problema, segundo Katia Macêdo, é que a pessoa continua acelerada fora do trabalho. Outra estratégia seria a negação do sofrimento e a tendência a correr riscos desnecessários, causando acidentes. E a última, seria o isolamento do profissional. O resultado de tudo isso são as patologias de sobrecarga, pós-traumáticas, a depressão e o suicídio.

Segundo estatísticas, 115 trabalhadores sofrem um acidente laboral a cada 15 segundos e o que se vê, segundo a psicanalista, é o aumento das doenças de isolamento e solidão e das patologias de depressão e suicídio. Para vencer o sofrimento no trabalho, ela aponta a proposta da clínica psicodinâmica do trabalho que é sentar e conversar com os colegas sobre o sofrimento vivenciado.

img_4170-copyA psiquiatra Maria Amélia Dias Pereira, doutora em Ciências da Saúde pela UFG, falou sobre a investigação diagnóstica em saúde mental do trabalhador. Segundo ela, é a diferença entre o prescrito e o real no trabalho que pode trazer o sofrimento. É o que a pessoa faz disso, das exigências físicas, mentais e psicoafetivas. A psiquiatra falou dos sintomas mais frequentes dos transtornos mentais que podem ser a fadiga, tensão muscular, distúrbios do sono e irritabilidade.

Maria Amélia discorreu sobre cada uma das principais doenças mentais e a possibilidade de se identificar ou não o nexo causal com o trabalho. Entre os transtornos mentais mais comuns estão a demência, o delirium, o transtorno congnitivo leve, o transtorno orgânico de personalidade, o alcoolismo crônico, o episódio depressivo, o transtorno de estresse pós-traumático, a síndrome da fadiga, a neurose profissional, a síndrome do esgotamento profissional (burnout) e o suicídio.

img_4188-copyPara a psiquiatra, são as pessoas mais idealistas a desenvolverem os transtornos mentais porque nem sempre a realidade possibilita a realização de seus sonhos. Na tentativa de fazer sempre melhor elas levam o trabalho para a casa, vão sentindo exaustão emocional e acabam estafadas.

Outro fenômeno importante no campo das doenças mentais é o suicídio que mata um pessoa a cada 3 segundos no mundo. O Brasil ocupa o 8º lugar em números absolutos mas a 113ª posição na média mundial, considerada a população, embora, segundo a palestrante, haja subnotificação dos casos. Em 2012, por exemplo, 11.821 pessoas se suicidaram no país. Por fim, a palestrante falou sobre os fatores de risco ao suicídio e a prevenção do ato extremo de tirar própria vida.
img_4192-copyNa parte da tarde, a psicóloga Marina Cançado falou sobre as estratégias para evitar os transtornos mentais. Ela apontou que 30% da população apresenta doenças mentais segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). “Vivemos hoje isolados socialmente, mais do que nunca, mas não vamos conseguir resolver os problemas sozinhos”, disse. Para Marina, apoiarmos nos colegas é extremamente protetor no ambiente de trabalho.
O psiquiatra Lúcio Malagoni falou, por sua vez, sobre a visão médica das estratégias de prevenção de doenças mentais relacionadas ao trabalho. Ele citou a importância da atividade física, de atividades mentais, da meditação, da psicoterapia e dos medicamentos, quando indicados. No último caso, a prescrição médica vai depender da intensidade, duração e ocasião do sofrimento mental.

img_4200-copyPor fim, a psicóloga Gabriela Castro discorreu sobre outras estratégicas para se defender do adoecimento. Para ela, as técnicas de relaxamento e os momentos de lazer são fundamentais para uma vida equilibrada e saudável. Ela também concorda que a melhor maneira de resolver um problema que nos incomoda é conversar sobre ele. “Em geral o depressimo mora no passado e o ansioso no futuro e é preciso, na verdade, focar no presente”, concluiu.

O juiz Eduardo Thon encerrou o evento e ressaltou que o conhecimento é a melhor maneira de prevenir o transtorno mental. “O seminário atinge sua finalidade prática para enfrentarmos esses novos desafios”, concluiu.

Fabíola Villela – Seção de Imprensa/DCSC

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