Superando o Silêncio: conheça a trajetória de resiliência de Ivani Ribeiro

Publicado em: 01/09/2026
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Mulher de cabelos ruivos, curtos, pele clara, sobrancelha esura e batom vermelho sorri pra foto. Ela usa camisa com listras branca, vermelho e preto e um colar de pedras em resina.Nascida em São Luís de Montes Belos, Ivani Ribeiro da Silva é servidora do TRT da 18ª Região desde 1993, quando foi requisitada do Governo do Estado. Pessoa com deficiência auditiva total, Ivani nunca deixou que o silêncio fosse maior que a sua determinação. Conheça um pouco mais sobre essa história que integra as ações da campanha do TRT-GO em alusão ao Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, celebrado em 21 de setembro. 

Casada, mãe de uma filha, Ivani é formada em Direito e especialista em Direito Civil e Processo Civil. Ao longo de vários  anos de dedicação ao TRT-GO, construiu uma trajetória marcada pela competência, superação e pelo amor ao serviço público. Ela sempre acreditou que o conhecimento e o trabalho são instrumentos capazes de transformar vidas. Nesses 33 anos de dedicação ao tribunal, Ivani já passou por várias unidades. Durante 13 anos atuou na Diretoria de Jurisprudência, onde conquistou a confiança de colegas e gestores, chegando a exercer a chefia da unidade. Depois disso, dedicou-se por 10 anos à Divisão de Controle Interno.

Em 2005, foi aprovada em concurso público para o cargo de técnico judiciário/área administrativa, passando a pertencer definitivamente ao quadro efetivo do TRT-GO. Ao ser nomeada, ficou um breve período na Vara do Trabalho de Goiás e, em seguida, passou a integrar a equipe da Coordenadoria de Comunicação Social, lugar onde ela afirma ter “se encontrado”, e onde permanece há 15 anos, “exercendo suas atividades com entusiasmo e orgulho”, afirma. Em 2019, Ivani recebeu a premiação Servidor de Mérito.

Mulher de cabelos ruivos segura um vaso de flores.O silêncio chegou e ficou

Ivani não nasceu com deficiência auditiva. Ela veio para a servidora de forma gradativa. “Comecei a perceber, ainda nos primeiros anos de trabalho, um discreto zumbido nos ouvidos. Aos poucos senti que os sons começaram a desaparecer. Minha audição, que antes era perfeita, foi sendo tomada pelo silêncio”, relembra. Ao investigar os motivos dessas alterações, Ivani foi diagnosticada com otosclerose coclear, uma alteração óssea no ouvido interno que atinge a cóclea. O osso ao redor do ouvido interno cresce de jeito errado e afeta a conversão das vibrações sonoras em impulsos nervosos enviados ao cérebro.

Após o diagnóstico, Ivani precisou se adaptar ao uso de aparelhos auditivos cada vez mais potentes, para continuar acompanhando o mundo ao seu redor. Segundo a servidora, no início, com a ajuda dos equipamentos, a maioria das pessoas com as quais ela trabalhava sequer imaginava que ela enfrentava uma deficiência auditiva. “Nunca permiti que minha deficiência me definisse ou comprometesse a qualidade do meu trabalho”, conta orgulhosa. Ao contrário, ela fez “do limão, uma limonada.”

No concurso que realizou em 2005, ela já era oficialmente reconhecida como pessoa com deficiência (PcD) por causa de sua condição, o que lhe permitiu ingressar em vaga destinada a PcDs. Entretanto, ela salienta que, com o passar dos anos, a perda auditiva tornou-se mais intensa e que, ao longo de sua caminhada no TRT, foi superando sua limitação auditiva de diversas formas.

Mulher abraça a filha

Ivani com a filha Luíza Vitória

Novas formas de ‘ouvir’ o mundo

“Hoje eu me comunico por meio da leitura labial, pois já não consigo mais ouvir áudios nem falar ao telefone”, comenta. Ela também destaca que, como a doença ocorreu na fase adulta, ela não foi iniciada na Língua Brasileira de Sinais (Libras), mas, apesar disso, encontrou na tecnologia uma grande aliada para realizar suas atividades. Outro aliado foi o teletrabalho. “O home office contribui para que eu possa exercer meu ofício de forma plena e tranquila. Somado aos recursos da informática, o teletrabalho tornou possível manter a minha produtividade e a excelência que sempre marcaram minha atuação”, explica.

Mesmo diante das dificuldades, Ivani continua ativa e buscando novos cursos, aprendendo continuamente e demonstrando que o desejo de evoluir é maior do que qualquer obstáculo. A servidora afirma que se sente feliz, acolhida, respeitada e profundamente grata ao TRT-GO, instituição pela qual nutre um carinho especial.

Acessibilidade e inclusão

Ao refletir sobre inclusão, Ivani acredita que seria importante tomar algumas medidas de acessibilidade para ampliar o acesso de pessoas com deficiência auditiva. A utilização de legendas é uma das suas principais reivindicações. “As legendas em todos os conteúdos com áudio, sejam palestras presenciais, eventos on-line, vídeos institucionais ou comunicações internas não beneficiam apenas as pessoas com deficiência auditiva severa, mas também uma parcela crescente da população, especialmente os idosos, que convivem diariamente com a perda gradual da audição”, afirma.

Embora reconheça a importância da Língua Brasileira de Sinais, Ivani lembra que seu aprendizado ainda alcança um público restrito. “As legendas, por outro lado, tornam a comunicação mais democrática, acessível e inclusiva. Elas funcionam como o antigo quadro-negro das salas de aula: não substituem a fala, mas permitem que muito mais pessoas acompanhem e compreendam a mensagem”, explica.

Ao olhar para sua própria história, Ivani ressalta que o silêncio jamais foi capaz de interromper seus sonhos, pelo contrário, ensinou-lhe novas formas de ouvir o mundo. Sua trajetória tem sido marcada pela coragem, resiliência e gratidão, provando dessa forma que a verdadeira força está na capacidade de transformar desafios em inspiração e de seguir em frente com alegria, dignidade e amor pela vida.

Ao compartilhar histórias como a de Ivani, a campanha do TRT-GO pelo Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência busca valorizar a diversidade, promover a inclusão e incentivar a construção de um ambiente de trabalho cada vez mais acessível e respeitoso para todos.

Trajetórias que ampliam o olhar sobre a inclusão

Esta reportagem integra também a série Trajetórias que ampliam o olhar sobre a inclusão, que reúne histórias de magistrados e servidores do TRT-GO que convivem com algum tipo de deficiência. A escuta atenta e o olhar sensível que conduzem esta narrativa também fazem parte da história contada. A entrevista e o texto são de autoria da servidora Monique Rabelo, da Coordenadoria de Comunicação Social do TRT-GO, pessoa com deficiência visual, que transforma a própria vivência em jornalismo comprometido com o pertencimento, contribuindo para revelar trajetórias que fortalecem uma Justiça do Trabalho mais acessível, diversa e humana.

Monique Rabelo / JA / LN/ WF

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