Mulheres falam de suas experiências na Justiça do Trabalho goiana: caminhos que se cruzam em carreiras comuns
Ela acorda um pouco antes dos compromissos matinais, senta-se no zafu para meditar pelo menos cinco minutos. Não consegue dispersar os pensamentos. São muitos. Tumultuam seu córtex pré-frontal. Afinal, são tantos os compromissos que não dá simplesmente para desligar o cérebro. Angustia-se, remexe, endireita-se e, por fim, levanta-se, sem conseguir contatar o eu silencioso que habita em algum lugar… melhor deixar para outra hora. Começa pela louça, roupa de molho na bacia, mas lembra-se que já é hora de malhar. Ok. Tudo certo. De volta, a correria para tomar banho, passear com o cachorro. Mas e a carne do almoço, quem vai comprar? Finalmente, desgarra-se das tarefas caseiras e enfrenta mais um dia de trabalho, não sem antes checar se o filho comeu direito, se pagou a conta de água atrasada e se está tudo bem com sua mãe.
Multitarefa? Não se gaba não. Podia ter menos compromissos, menos responsabilidades. Mas, enfim, não é tudo compartilhado hoje com os homens? Não é bem assim…. Pensar que há apenas 88 anos o

Há três anos o Brasil comemora, no dia 24 de fevereiro, o “Dia da Conquista do Voto Feminino no Brasil”. A data comemorativa foi estabelecida por meio da lei 13.086/15, sancionada pela primeira mulher eleita para chefe máximo do Executivo, Dilma Rousseff
voto feminino não era permitido no Brasil e quase 200 anos atrás o mundo ainda não contava com o voto delas. Sim, a luta pelo direito ao voto foi uma das grandes conquistas do movimento feminista, mas é preciso mais. Dividir igualmente os espaços na política, no mercado de trabalho, na iniciativa privada e no setor público, e, claro, em casa.
O fato é que a mulher continua acumulando papéis, mesmo quando inserida com sucesso no mercado profissional. Conciliar a vida profissional e as atividades da vida pessoal ainda é um desafio para a maioria das mulheres trabalhadoras. No TRT18, um jovem tribunal de apenas 29 anos, elas conquistaram aos poucos a liderança em alguns setores, mas ainda são minoria nos cargos de chefia, embora representem mais da metade da força de trabalho na 18ª Região, 54,6%, de acordo com informações da Divisão de Estatística, Pesquisa e Inovação da Secretaria-Geral de Governança e Estratégia.
A desembargadora Rosa Nair Reis acredita que ainda existe alguma resistência quanto às mulheres assumirem posições de chefia, sobretudo na área-fim. “Nos cargos que demandam mais estudo, foco nos estudos, as mulheres estão disparadas, mais assistentes de juízes e nos gabinetes. Mas nas funções de comando tem pouquíssimas mulheres”, alerta a desembargadora.
De fato, dos 110 cargos de direção (em comissão) existentes no TRT goiano apenas 30 são ocupados por mulheres. Nas chefias das Varas do Trabalho o número de mulheres que ocupa o cargo de diretor de secretaria ainda é menor. São oito mulheres para 40 homens, ou seja, apenas 16,7% de mulheres comandam as unidades judiciárias de primeiro grau em Goiás. Sem falar que o número de servidoras é ligeiramente maior do que o de servidores. São 1.465 servidores, sendo 800 mulheres.
“Nem precisa de estatísticas, chegamos nas varas e vemos mais mulheres, mas nas funções de comando vemos mais homens”, ressalta Rosa Nair. No segundo grau a mesma realidade se mantém com quatro desembargadoras para 10 magistrados. A mudança acontece lentamente ao longo da história do Tribunal que passou a contar em seus quadros com mais duas desembargadoras em 2018, uma delas Rosa Nair, a última a tomar posse no cargo pelo critério de merecimento.
Sua história é parecida com a das mulheres que conquistaram seu espaço no mundo ainda com predominância masculina no mercado de trabalho. Nasceu e cresceu em Inhumas, uma pequena cidade do interior, perto de Goiânia. “Eu não tinha muitas ambições. Minha maior ambição da infância era quando crescer ser vendedora de tecidos das Casas Pernambucanas. Porque no interior era uma loja bonita, colorida, muito bem iluminada, então eu entrava e ficava encantada”, conta. Mesmo tendo estudado em escola pública conseguiu passar no vestibular para Direito na Universidade Federal de Goiás e não parou mais de estudar. Em 1993 entrou para a magistratura. “Não tive dificuldades por ser mulher e eu acho que a Justiça do Trabalho é a preferida das mulheres que optam pela magistratura”, reconhece.
Alguns meses após ingressar no TRT, assumiu a titularidade da Vara do Trabalho de Jataí. Eram várias horas na estrada, cheia de buracos, movimentada e perigosa, até chegar na cidade. “Foi um período muito sofrido” que só terminou após engravidar do filho Pedro Henrique.
Mas ela conta que sempre atuou com muita independência e que não teve dificuldades na carreira por ser mulher. “Os colegas sempre foram muito respeitosos. Não há nenhuma ingerência no nosso trabalho. E sempre tive a felicidade de trabalhar com pessoas muito bem qualificadas e muito leais, muito amigas também, que têm me ajudado a superar muitos dos desafios que enfrentamos ao longo da carreira”, ressaltou a desembargadora.

Cássia Kafuri (ao centro) comanda a equipe de engenheiros e arquitetos do Tribunal. “Sou descendente de libaneses (avós paternos) e não nego a raça. Adoro cozinhar. Aprendi desde cedo com meus pais que o melhor lugar para reunir a família é diante de uma mesa farta”
Cássia Kafuri é um exemplo de que a mulher também ocupa espaços antes predominantemente masculinos. Graduada em engenharia elétrica, ela chefia a Secretaria de Manutenção e Projetos no TRT18 há quase três anos, mas já passou por outros cargos de direção. Ao longo de sua carreira bem-sucedida também deixou espaço para um tempo de dedicação exclusiva à maternidade quando fechou a empresa que tinha por conta do nascimento de seu primeiro filho, hoje com 23 anos. A empresa demandava muitas viagens e longos períodos fora de casa, o que, para a engenheira, não combinava com a responsabilidade da maternidade. “Não dá para delegar a maternidade. Faria tudo de novo”, revela.
Para Cássia, “sempre foi muito natural” o fato de comandar homens, tanto na iniciativa privada quanto no setor público. “Nunca tive o desrespeito de ninguém”. Mas ela conta que uma única vez não conseguiu o emprego por causa da idade. “A conversa foi por telefone, mas quando apareci pessoalmente para acertar os detalhes do trabalho me dispensaram porque me acharam muito nova”, afirma.
A escritora nigeriana e ícone pop Chimamanda Ngozi Adichie reconhece que o feminismo tem a ver com justiça. Se ainda não há igualdade no mundo, precisamos lutar por isso, defende. “Não significa que você seja uma vítima. Por causa do feminismo, mulheres podem votar, comprar um carro, uma casa sem precisar de um homem assinando algum documento por ela ou lhe dando permissão”, explica Chimamanda. Isso, na verdade, era absolutamente “normal” no Brasil e no mundo há poucas décadas.
Em seu livro “Sejamos todos feministas”, a escritora afirma que o problema da questão de gênero é que ela prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos. “Seríamos bem mais felizes, mais livres para sermos quem realmente somos, se não tivéssemos o peso das expectativas do gênero”, ressalta.
Para Geisa Carlos, servidora do TRT18 há 26 anos, não há mais peso algum. Divorciada e mãe de três filhos e um enteado, “gerado no coração”, ela superou as limitações de uma cidade pequena no Tocantins, onde nasceu, para estudar direito em Goiânia junto com mais quatro irmãos. Hoje concilia a carreira de analista judiciário no Tribunal com a corrida, o pilates, a culinária, o bordado, a prática religiosa e o cultivo de orquídeas. Ela faz tudo com paixão e ainda encontra tempo para ganhar medalhas em dezenas de meias maratonas das quais participou no Brasil e fora do país. Haja fôlego, hein, Geisa!
Monique Rabelo alcançou um “grande sonho” de ser aprovada no concurso de técnico judiciário do TRT. Primeiramente foi lotada no Pará/Amapá e depois foi redistribuída para a 18ª Região. Ela teve que vencer o desafio de terminar a faculdade de direito sem visão. Ficou cega após um assalto no banco Itaú em 2005 quando foi empurrada contra uma porta de vidro e deslocou a retina. “Digo que não foi fácil o período de adaptação, mas eu sabia que tinha apenas dois caminhos, o da revolta ou seguir em frente”, afirma.
Monique está grávida de cinco meses de um menino e está radiante de felicidade, outro sonho acalentado por ela e o marido. “Digo que, apesar das dificuldades diárias, Deus sempre foi muito generoso comigo, pois é ele que me traz uma força inexplicável para que eu continue a jornada da vida com um sorriso no rosto”, ressalta.
A servidora diz que por uma semana ao mês fica em Brasília onde participa do Grupo Nacional de Negócios a convite do CSJT, a fim de implementar ideias e apresentar melhorias acerca da acessibilidade no Processo Judicial Eletrônico (PJe). “O objetivo é promover a inserção no trabalho de todas as pessoas com deficiência visual (magistrados, servidores, advogados e estagiários), sejam estas cegas ou com baixa visão, garantindo que realizem suas atividades com mais autonomia, celeridade e eficiência”, explica.
As irmãs Adriana Moreira e Tânia Moreira também são exemplos de que a disciplina e a determinação femininas podem superar qualquer obstáculo na conquista da carreira. Receberam, inicialmente, o incentivo do irmão Francisco Almeida, que já era servidor do TRT, e priorizaram os estudos, “sem preterir, é claro, família, filhos. Ou seja, como faz a maioria das mulheres, acumular funções, abrir mão de si mesma, do lazer, por um período certo”, comentou Adriana.
Mulheres determinadas, identidade de objetivos, não deu outra: uniram forças, trocaram conhecimentos e ingressaram no Judiciário como servidoras do TRT18. Adriana é atualmente diretora do Posto Avançado de Porangatu e, a 130 quilômetros dali, sua irmã Tânia dirige a Vara do Trabalho de Uruaçu, ambas localizadas no norte de Goiás. O apoio mútuo as ajuda no enfrentamento dos desafios que surgem no dia a dia.
Para Adriana, o fato de haver poucas mulheres no comando das Varas hoje no TRT mostra que o machismo ainda se faz presente nas relações profissionais. “O que vejo é que alguns ainda têm dificuldades de serem chefiados por mulheres, o que mostra que o problema cultural ainda persiste em nossa sociedade”, declarou.
Já Tânia credita o fato de haver poucas mulheres no comando das Varas às exigências do cargo, como mudanças eventuais de cidade para acompanhar o juiz, o que pode ser um desafio a mais para a mulher. “Conciliar o cargo de direção com as múltiplas tarefas que temos é um desafio muito grande. Mãe, esposa, dona de casa, estudante. É complicado mobilizar a família inteira para uma mudança de cidade, por exemplo”, assinala.
Fabíola Villela
Coordenadoria de Comunicação Social/TRT18
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