Na vida você tem duas escolhas: ou chora ou vende lenços

CAPA-MATÉRIA-2capa-matéria-esta“A resposta que você dá para sua vida é o que muda completamente a sua realidade e a das pessoas que estão a sua volta. Quando nos propomos a fazer algo, temos que fazer bem-feito. Temos que dar o melhor na primeira oportunidade. A grande diferença entre pessoas comuns, ordinárias, para a pessoa extraordinária, é algo mais, chamado ‘extra’. Toda vez que você caminha um pouco mais do que foi pedido, toda vez que você faz algo mais do que foi solicitado, você está fazendo um ‘extra’. E quem faz o “extra” não perde nunca o título de extraordinário”. Esse foi um dos conselhos do ex-morador de rua e hoje um dos maiores contadores de histórias do Brasil, Roberto Carlos Ramos, na palestra ‘Como fazer da sua vida uma bela história’, em homenagem ao dia do servidor no TRT18.

Segundo Roberto, só existem dois tipos de pessoas na face da terra: as que choram e as que vendem lenços. “Todos os dias quando você levanta você faz uma opção na sua vida. Vou propor soluções, vou ousar, vou correr atrás, vou vestir a camisa e fazer a diferença hoje ou vou chorar a minha vida, chorar o meu salário, vou chorar minha cidade, o presidente da minha empresa”, explicou o pedagogo. Para ele, não importa a profissão ou a área de atuação, o importante é fazer bem-feito. “Eu descobri que se eu fizesse bem feito, se eu amasse realmente aquilo que eu me propunha a fazer, ou se eu fizesse com tesão, a recompensa viria com o tempo. Poderia ser em nível de reconhecimento, tipo um filme contando a minha história de vida ou em nível financeiro”, concluiu.

Muitos servidores que estavam assistindo à palestra se emocionaram ao ouvir o pedagogo Roberto Carlos Ramos contar um pouco da sua vida e sua história de superação. Graças a uma professora francesa que enxergou nele um ser humano que precisava de uma família, de menino de rua que havia sofrido grandes mazelas nesse submundo, ele ganhou uma família, aprendeu a ler, viveu um tempo na França, depois se formou em Pedagogia e hoje tem mestrado e doutorado e é um dos maiores palestrantes do Brasil na área de motivação.

O presidente do Tribunal, desembargador Aldon Taglialegna ressaltou que o Tribunal reconhece o valor dos servidores e por isso preparou esse evento com uma palestra tão brilhante. Ele também agradeceu o apoio e a solidariedade dos servidores nesse momento após o incêndio. “Meus agradecimentos a vocês, servidores, por compartilharem comigo a dor e o fardo bem como o calor das chamas que há pouco tentou nos abater”, disse. “Vejo-os hoje, mais que nunca, emanados em torno de um ideal, da reconstrução de um sonho coletivo, o nosso Complexo Trabalhista de Goiânia. Estamos juntos nessa luta, inclusive pela justa e merecida revisão do plano de carreira dos servidores do Poder Judiciário da União. Meus sinceros parabéns a todos”, afirmou.

Ainda no evento, foi exibido um vídeo do Seção de Responsabilidade Social do TRT, para mostrar o trabalho de sustentabilidade desenvolvido com o apoio dos servidores. A chefe do setor, Lara Barros, agradeceu ao apoio dos colegas do Tribunal que ajudaram a cumprir as metas da responsabilidade socioambiental. Ela lembrou que quando se reuniu com o diretor-geral para analisarem que percentual do copo descartável seria reduzido, ele sugeriu eliminar o uso do copo descartável pelo público interno, e graças ao apoio de todos, a meta foi extremamente exitosa. “Essas ações já são referência para outros tribunais, que estão utilizando as ações do nosso TRT como modelo. Sustentabilidade é o caminho. Não há mais caminho para o desperdício e uso inadequado dos recursos naturais”, reforçou.

“Independentemente do cenário que a gente atravessa hoje, uma dita crise política, veto de nosso PCS, apesar disso, nós temos muito a comemorar. É uma carreira digna, uma carreira honrada. É daqui que a gente tira o sustento das nossas famílias”, comentou um dos servidores homenageados com o prêmio Servidor de Mérito, Joelson Lisboa. A servidora Ivonilde Ramos disse que, apesar dos momentos difíceis, se sente muita grata pelos 25 anos de serviço prestado ao Tribunal. “Nós passamos por momentos difíceis, com o grande incêndio que aconteceu, e também com a contenção nos salários. Mas vale a pena o esforço e a dedicação. Vale a pena investir no Tribunal”, avaliou.

Os presentes ainda contaram com uma bela apresentação do Coral Labor em Canto, formado pelos servidores do Tribunal, que interpretou as músicas “Uirapuru” e “ABC do Sertão”. O fim do evento ficou por conta da cantora Mara Cristina, que animou os servidores com a apresentação musical Roda de Samba. O evento foi patrocinado pela Caixa Econômica Federal.

Lídia Neves/Seção de Imprensa/DCSC

Confira abaixo a entrevista concedida pelo palestrante Roberto Carlos Ramos à web-rádio TRT Goiás.

Rádio TRT Goiás: Roberto, você foi um menino de rua que foi adotado com 13 anos de idade por uma mulher francesa. Como foi essa adaptação e o fato de passar a ter uma família?

Roberto: Não foi fácil não só para mim, mas também para a francesa. Para mim, foi a quarta ou quinta tentativa de adoção e eu tinha certeza absoluta que daria errado como as outras vezes. O que aconteceu é que essa francesa teve muita determinação. E eu brinco que ela teve os três “F”s fundamentais: força, fôlego e flexibilidade. A força que eu falo é porque ela acreditava. O fôlego é porque ela teve muita paciência. E flexibilidade porque ela soube realmente como trabalhar comigo. Ela conseguiu, ela conquistou. Para mim, se não fosse essa mulher, com certeza minha vida teria sido muito diferente.

Rádio TRT Goiás: E como foi a sua adaptação lá na França? Falar um novo idioma, ter uma família nova, em um país diferente, como foi o período que você morou na França?

Roberto: Na verdade, acredito que foi mais fácil estar na França do que no Brasil. Aqui eu já tinha um rótulo “aquele menino é da Febem”, “aquele menino rouba na rua”. Na Febem, eu era um cidadão do mundo. Mas a cultura francesa obrigava as pessoas a me respeitarem. Até prova em contrário, eu era um cidadão e tinha que ser respeitado. Isso me colocou com medo muito grande de que descobrissem que eu era menino de rua. Então isso me obrigou a ter um comportamento sério, ético. Começou a desenvolver em mim a perspectiva de ser um cidadão realmente, de cumprir com minhas obrigações. Só depois que voltei ao Brasil, eu percebi que contar a minha história poderia fazer uma diferença muito grande, mostrar que era possível.
Mas o fato de me encontrar em uma outra cultura, em um local diferente, eu entendi que as pessoas poderiam me respeitar se eu respeitasse as pessoas. Veio uma ideia de reciprocidade. Vão me tratar da mesma forma que eu trato as pessoas, algo que eu não percebia no Brasil. Aqui as pessoas já tinham preconceito contra mim, que eu era menino de rua, cheirador de cola, era ladrão, então isso massacra.

Rádio TRT Goiás: O que você lembra da sua infância como menino de rua, o que mais te marcou?

Roberto: Tinha muito sofrimento, mas uma liberdade fantástica, uma ideia de não ter limites, não ter hora. Se você tivesse a fim de comer, batia numa porta e pedia comida, se tivesse a fim de roubar, roubava. Era uma coisa meio utópica essa pseudoliberdade. Na verdade, tinha um outro lado, que é o lado da discriminação, do preconceito, a sensação de não pertencer a nenhuma classe, de estar à margem de um processo. Mas por mais sofrimento que tenha sido, hoje quando encontro com amigos que foram meninos de rua e hoje estão em uma situação diferente, a gente dá gargalhada pelas atrocidades que nós passamos. O que não nos matou nos fortaleceu.

Rádio TRT Goiás: O que a rua te ensinou?

Roberto: A rua funcionou como uma escola ao contrário. A rua é um lugar para se transitar, não para se morar. Na época eu achava que o fato de morar na rua era coisa legal, mas não era. Era se sentir à margem, não ser enxergado, não ser visto, não existir. Nesse ponto, a rua me ensinou que para eu existir eu tinha que tocar, tinha que agredir, tinha que gritar. Tudo que vai contra a ideia da civilidade e da educação. Mas para existir tinha que ser assim. Então eu acredito e insisto que a rua tem que ser um local transitório, não é local para ninguém ficar.

Rádio TRT Goiás: Que conselhos você daria para quem trabalha no Tribunal para começar uma bela história de vida se não está satisfeito com a vida que leva?

Roberto: Antes de mais nada, independente de ser do Tribunal, funcionário de um shopping, jogador de futebol, eu brinco que tem duas maneiras de você contar a sua história: chorando ou vendendo lenços. Todo mundo tem uma bela história, mas tem pessoas que adoram a ideia da autopiedade, da comiseração, para que as pessoas deem mais atenção. Eu poderia fazer as pessoas chorarem com minha história, eu poderia dizer que fui menino de rua, aluno da Febem. Fugi da Febem mais de 100 vezes. Fui estuprado, fui massacrado. Mas acho que não é legal partir por aí, porque todos os meninos de rua passaram por isso, agora poucos meninos de rua atingiram mestrado ou doutorado, como eu, poucos tiveram oportunidade de morar na França, poucos tiveram a oportunidade de ter uma fada madrinha encarnada aqui tomando conta de mim. Então, para se ter uma boa história, antes de mais nada, é a forma de você contar, ou você chora com sua história ou você vende lenços com ela.

Bate-bola com Roberto Carlos Ramos

Família: É a causa de todos os problemas, mas também a solução deles. No meu caso, o que me fez parar nas ruas foi a falta de uma família, mas, ao mesmo tempo, o que me fez sair das ruas foi a ideia de uma nova família.

Amigos: Tudo isso só vale a pena se você tiver. E mede-se o valor de um homem pela quantidade de amigos que vão ao seu velório.

Amor: Eu acho que tudo que nós estamos fazendo aqui é por amor. Se não existir essa paixão, essa vontade muito grande de fazer o que se gosta, o que se tem prazer, não tem sentido, é melhor não fazer.

Time de futebol: Atlético Mineiro

Deus: Eu não tenho uma religião, mas acredito muito nesse Ser Superior que está em cima, alguns chamam de Alá, Buda, Jeová, Xangô, Maomé, Cristo, não importa. Mas tem um Ser Superior a quem eu agradeço diariamente o dom da minha existência.

Uma música: Ne me quitte pas, de Edith Piaf.

Comida preferida: Como um bom mineiro, acho que um leitão a pururuca tem o seu lugar.

Um filme: “O contador de histórias”, que é minha história de vida.

Um livro: “A arte de construir cidadãos”.

Um hobby: Eu adoro montar a cavalo.

Um sonho: Terminar minha casa, do jeitinho que eu quero, em Arraial d’Ajuda, na Bahia.

Filosofia de vida: O amanhã não existe. Tudo que tiver que fazer, faça hoje e bem-feito. A ideia de felicidade tem que ser do presente e não do futuro.

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