Leandro Karnal vê crise financeira e política com otimismo e desafia as pessoas a saírem da zona de conforto

IMG_9348 (Copy)O professor Leandro Karnal, filósofo e doutor em História pela USP, proferiu, na manhã desta sexta-feira, 19/2, palestra de abertura do ano letivo de 2016 da Escola Judicial do TRT18, no auditório do Fórum Trabalhista de Goiânia. A palestra, cujo tema foi “Olhando a crise em perspectiva. Quais os ganhos e perdas?”, foi assistida por cerca de 300 pessoas e também foi transmitida ao vivo pelo site do Tribunal. A mensagem deixada pelo professor foi de otimismo quanto aos rumos da crise brasileira. Ele admitiu que o país passa por uma crise de liderança, o que faz com que as pessoas fiquem perdidas, mas ressaltou que, apesar de tudo, estamos em plena capacidade de responder ao problema. “Toda vez que eu saio da minha zona de conforto eu repenso os meus valores”, disse ao falar da importância de se olhar a crise em perspectiva.

Segundo o filósofo, os jovens não têm experiência de crise como os mais velhos que viveram a superinflação dos anos 80. Ele citou os índices inflacionários de 1985, que chegavam a mais de 84% por mês no Brasil, e também alguns índices estratosféricos em outros países, para dizer que, na verdade, não se pode tomar o momento pela realidade e nem confiar no que os jornais e TVs publicam, pois eles mostram apenas um mundo muito parcial. “Ler um jornal hoje é ter um problema de insanidade psíquica”, disse. Para Karnal, não devemos confundir a elite com o país e o país é formado por gente. “Eu preciso ter presente que aquilo que publicam é uma visão mediada de mundo – o homem comum, malgrado tudo, continua vivendo. É preciso olhar em profundidade, além do imediato, isso é perspectiva”, alertou.

IMG_9360 (Copy)O historiador também analisou a situação do Brasil que, como o resto do mundo – menos a China –, vive uma retração. Ressaltou, no entanto, que a crise fortaleceu o crescimento do agronegócio no país. “A China desindustrializou o mundo, mas o Brasil ganhou na exportação da soja e o agronegócio continua crescendo”, exemplificou. Karnal citou dados da melhor distribuição de renda que ocorreu no país a partir de 2011 e teve seu ápice em 2014 refletida na ascensão da Classe C, que aumentou o seu poder sobre a economia. “A quantidade de miseráveis e de mortalidade infantil no Brasil diminuiu enormemente”, acrescentando que houve a eliminação da miséria absoluta. “Enfim, estamos passando por uma forte crise econômica, mas não foi a pior que o Brasil já viveu”, avaliou.

Por outro lado, o historiador reconheceu que há, na verdade, uma “fortíssima” crise de valores no país hoje. Há poucos estadistas e muitos políticos. A diferença, segundo ele, é que os primeiros influenciam uma nação nos 50 anos seguintes, para o bem ou para o mal. De acordo com Karnal, não há líderes carismáticos nesse momento no país, apesar de que no Judiciário houve uma mudança estrutural. “Se antes a imagem da Justiça era o juiz “Lalau” (se referindo à fraude na construção do TRT paulista), hoje é a do Moro, (se referindo ao juiz federal Sérgio Moro, que ganhou notoriedade nacional por comandar o julgamento dos crimes identificados na Operação Lava Jato, da Polícia Federal)”. Leandro Karnal também citou a falta de diálogo entre os grupos antagônicos em choque no país hoje e a incapacidade de discussão nacional. “Quando eu passo a adjetivar, eu deixo de pensar. Fico preocupado com as pessoas que pararam de se ouvir”, disse, referindo-se aos “coxinhas” de um lado e aos “petralhas” de outro (termos usados por partidários do PT e do PSDB, ao rotular uns aos outros).

IMG_9330 (Copy)O palestrante voltou a falar em otimismo quando comparou o Brasil que, com todos os defeitos estruturais, não tem uma taxa de suicídio tão alta como no Japão, que é 50% maior. “O Japão é um dos países mais éticos do mundo, mas seus jovens sofrem hoje com a hikikomori, uma forma específica de agorafobia (medo de sair na rua, num lugar onde não há furto nem roubo)”. Problemas humanos que, segundo o historiador, nos dão perspectiva para nossa atual crise. “Estou dando perspectiva a vocês para dizer que a tentativa de resolver a crise não vai criar o paraíso. O que nos define como seres humanos é o erro”, admitiu. Para Karnal, a crise é o momento para avaliação já que “todas as vezes que saio da minha zona de conforto eu repenso os meus valores”. Ele acrescenta que na zona de conforto não encontramos desafios e que ela “é aquilo que me agrada e que me impede de ir além”.

Enfim, reafirmou que para enfrentar a crise é preciso ter estratégia e que devemos racionalizar o esforço. De acordo com o filósofo, não há possibilidade de vitória sem esforço e falta ao brasileiro o gosto do esforço. “Tendemos a achar que as pessoas têm vocação e eliminamos a ideia do esforço. No entanto, todo fruto que eu posso colher na vida adulta foi construído pedra a pedra”, ressaltou. Em seguida, filosofou sobre a virtù, que é como as pessoas interagem com as ações da fortuna. Ou seja, não controlamos tudo, as pessoas são diferentes, e sorte e azar chegam para todos, mas o que elas fazem com sorte e o azar depende da virtude.

Leandro Karnal retomou novamente a questão do erro que, para ele, é fundamental. “No contraditório está o começo da Justiça. É o erro que me define como pessoa e é com o erro que eu chego à possibilidade de um acerto maior”, disse. Segundo o professor, aqueles que desistem durante a crise, por preguiça ou covardia, a tornam permanente, e a infelicidade vicia, pois livra-nos da responsabilidade. Ele acrescentou que o pensamento mágico é fabuloso, mas o ano não poderá ser regido pela magia e, sim, por aquilo que fizermos. “Tudo o que eu fizer é decisão, e eu sou senhor do meu destino e a felicidade ou a infelicidade não é um acidente, é uma escolha”, e reconheceu que a crise funciona como uma doença, que vai passar. “É irrelevante focar na crise – ou iremos para o fundo do buraco ou vamos superá-la, mas a questão é olhá-la em perspectiva e diminuir o narciso”, concluiu.

IMG_9319 (Copy)A diretora da Escola Judicial do TRT18, desembargadora Kathia Albuquerque, agradeceu o professor pela presença na abertura do ano letivo da EJ. Ela ressaltou que, apesar de o Tribunal ter sido “brindado” com um profundo corte orçamentário neste ano, a escola continuará promovendo seus eventos e cursos voltados para a formação de magistrados e servidores. “Eu acho que o professor Karnal nos desafiou a repensar a forma de reagir diante da situação e da crise que estamos vivendo. Nós temos um excelente corpo de magistrados e servidores e não é uma crise que vai tirar a nossa alegria de trabalhar e atender o nosso jurisdicionado da melhor forma possível”, concluiu Kathia Albuquerque.

Fabíola Villela (Com a colaboração de Wendel Franco) – Setor de Imprensa – DCSC

Ouça abaixo a notícia veiculada na Rádio Web TRT Goiás.

Assista a palestra aqui:

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Fotos do evento:

 

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