Transtornos mentais relacionados ao trabalho são discutidos durante Seminário no TRT18

A Escola Judicial, em parceria com o Comitê Gestor Regional do Programa Trabalho Seguro, promoveu, no último dia 31 de outubro, a 5ª edição do Seminário Regional sobre o Trabalho Seguro, cujo tema foram os transtornos mentais relacionados ao trabalho.

 

O doutor em psicologia Fernando Costa foi o primeiro a falar. Vestido de uniforme de gari, Fernando apresentou um resumo de sua experiência de 10 anos junto aos garis de São Paulo e que é contada também no livro Homens Invisíveis: Relatos de uma Humilhação Social. Ele fez um relato contundente da experiência que viveu, ainda como estudante da USP, do dia a dia dos garis, do sofrimento moral e psicológico desses trabalhadores. Ele conta que o que mais os incomodavam era o fato de não serem ouvidos e não terem direito a voz, de opinar sobre o próprio trabalho. “O nível de alcoolismo é gigante, é o ópio acessível. Eles perdem dia de serviço por causa disso, se acidentam por causa disso”, reveleu o palestrante.

Fernando Costa conta que a experiência começou em 1994 a pedido de um professor do curso de psicologia da USP para que os estudantes tivessem contato com uma profissão braçal, que não tivesse qualificação técnica. No dia em que trabalhou na universidade sequer foi visto e muito menos reconhecido no uniforme laranja de gari. “Foi como se tivesse levado uma facada na barriga como se minha subjetividade estivesse sido sugada abruptamente”, relatou.

Ele ainda pontuou que viver a profissão de gari é sentir-se continuamente excluído, “como se de alguma forma os ambientes públicos fossem naturalmente designados para sujeitos privilegiados. Você tem a sensação o tempo todo de que você não pertence àquele lugar, de que você está ali por uma concessão, está ali para realizar um serviço apenas”, disse.

Quando você está excluído da possibilidade de sentir parte de algo, de governar, de realizar, você está de alguma forma acometido de algo como se fosse a amputação de um membro, explica Fernando. Segundo ele, é o primeiro passo para cair num quadro depressivo de longuíssima duração. “Não temos instituições constituídas e preparadas para realizar o resgate moral desses sujeitos. Então, o trabalhador braçal é sobretudo um náufrago, ele não encontra porta e não encontra salvamento. Nós é temos que resgatá-los”, concluiu.

O palestrante disse que também foi convidado pelo TRT-RJ para realizar a mesma experiência com desembargadores e magistrados que atuaram como trabalhadores braçais. O resultado desse projeto será divulgado em breve por meio do relato dos magistrados nos diários de campo.

A juíza Mânia Borges de Pina falou em seguida sobre os impactos do alcoolismo na construção civil. O objetivo da magistrada foi chamar a atenção para a incidência alta de alcoolismo e uso de drogas entre os empregados desse setor. Segundo ela, o alcoolismo é uma doença séria e estigmatizante que tem um traço praticamente endêmico dentro da indústria da construção civil e a abordagem do alcoolismo, tanto na sua causa quanto no seu efeito, é multifatorial. “O ambiente de trabalho precisa ser analisado e verificado como uma possível concausa para o agravamento da doença”, afirmou.

As consequências são terríveis, segundo a palestrante, já que o alcoolismo afeta o rendimento no trabalho, causa uma distorção da percepção da realidade e, principalmente, causa uma distorção da percepção do risco e o ambiente laboral na construção civil naturalmente oferece risco. “Então, o empregado alcoolizado ao longo da jornada de trabalho perde essa percepção e há um aumento dos acidentes típicos de trabalho.

Para a juíza, é imprescindível que a sociedade em geral, os sindicatos, a Justiça do Trabalho e os órgãos fiscalizadores e os empregadores realmente mudem o olhar para esse problema social. “O alcoolismo, além de estigmatizante, é incapacitante porque o uso do álcool mina as forças do empregado, causa distúrbios metabólicos, transtornos mentais, rupturas familiares e aumenta o índice de absenteísmo”, concluiu.

Durante o seminário ainda falaram a psicóloga Maria Luiza Oliveira, sobre noções básicas das diversas doenças mentais que podem afetar o trabalhador, e a psicanalista Luciene Godoy, autora dos livro A Felicidade Bate à Sua Pele, que abordou o sofrimento e o prazer nas relações humanas.

Fabíola Villela – Seção de Imprensa/CCS

Esta entrada foi publicada em Escola Judicial, Notícias e marcada com a tag . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Os comentários estão encerrados.